sexta-feira, 22 de maio de 2009

Valeu, Zé!

Zé Rodrix, que infelizmente nos deixou hoje. Foto de Drika Bourquim

Tive a felicidade de conhecer pessoalmente José Rodrigues Trindade, uma das cabeças mais criativas e produtivas que este país já teve. Além de cantor e compositor, era multiinstrumentista, produtor musical, escritor e publicitário. Meu contato com o Zé Rodrix aconteceu quando eu era redator estagiário da agência de publicidade JWT, de São Paulo, e acabava de aprovar meu primeiro roteiro de comercial para a TV. A produção, que seria ambientada em uma linda fazenda de café, contava com dois atores de primeira linha da propaganda e uma boiada de verdade. O produto era o Duotin, vacina para imunizar o gado, produzida pela gigante multinacional Merk, Sharp & Dohme.

O estúdio A Voz do Brasil, localizado em um amplo imóvel no bairro paulistano dos Jardins, já era na época uma das principais produtoras de áudio do mercado. Tinha como sócios, além do Zé Rodrix, o Tico Terpins (falecido em 1998), outra figuraça que, como o Zé, era também integrante do Joelho de Porco, grupo precursor do movimento punk no Brasil.

Lembro de ter ficado de queixo caído com as instalações da produtora, e mais ainda por ser recebido pessoalmente pelo Zé Rodrix, que ao saber que eu era um estagiário redobrou-se em gentileza e carinho. Fomos tomar um café em uma das salas da casa e conversar um pouco. Ele era a simpatia em pessoa, um cara acostumado a receber bem, um sujeito agradável e culto, absolutamente seguro da sua capacidade de cativar. Lembro muito bem dos seus olhos terem brilhado de surpresa quando revelei que possuía um LP dele, e que uma das músicas daquele LP, o belo blues “Exército da Salvação”, tinha servido de trilha para alguns dos meus romances na juventude. Ele sorriu com sinceridade e se disse feliz por saber daquilo, embora não gostasse de lembrar de sua carreira solo, desgostoso que tinha ficado com a indústria fonográfica.

O Zé levou a mim e à Naná, então produtora de rádio e TV da agência, até uma sala equipada com uma enorme mesa de som. Ele pôs para rodar a trilha que havia criado para o comercial, uma peça instrumental que deveria conter elementos rurais, mas não poderia ser “caipira”, já que iríamos falar com grandes produtores, gente que geralmente nem vive nas fazendas. Assim que a música começou me encantei com a qualidade do material. O tema era lindo e certeiro, pontuava as cenas e os diálogos com precisão e atendia exatamente ao que esperávamos e precisávamos. Perfeito, bastava finalizar.

Nos despedimos satisfeitos com o resultado da “parceria”. Deixei claro que me senti feliz e honrado por ter trabalhado com ele, ao que ele agradeceu e desejou que nos víssemos de novo. Isso aconteceu somente uma outra vez, quando fui assistir ao ensaio do espetáculo "Não Fuja da Raia", cuja direção musical era do Zé Rodrix. Fui na qualidade de aluno de um curso de teatro, do qual também fazia parte a futura atriz Milla Christie. Assim que entramos vimos a Cláudia Raia no palco, jogando seus quilômetros de pernas pro ar. Olhei para a primeira fila de poltronas e lá estava ele, fazendo anotações, comentando, orientando, atento a tudo. Colocando mais uma vez seus múltiplos talentos a serviço da arte.

3 comentários:

Vivica Bolacha disse...

Enquanto uns vão, outros veem. Meu sobrinho nasceu hoje. Mas não vou deixar ele ser nem músico, nem escritor, nem publicitário. Até hoje não conheci nenhum que fosse normal...rs!

Beijos

ipaco disse...

Foi uma pena mesmo a morte dele.

Renata Ricci disse...

Tb conheci pessoalmente , um homem realmente encantador , como pocuos !
marcou pra sempre pela paixao que fazia seu trabalho !!!